domingo, 20 de maio de 2012

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Minhas pálpebras palpitam
- como o músculo das emoções -
atentas ao que não se vê
por dentro adormeço
distante, silente
itinerante de notas e letras
que se findam
em êxtase e lamento
ecos da alma

fecho os olhos para o mundo
(insana realidade)
porque se se fecha a janela
o mar de negro em que se adentra
e o infinito que se pode tocar
possuem a imensidão das galáxias
e a profundidade do lume da Terra

rejeito o palmo opaco à frente
o lodo e o bolor

fecho os olhos
e encontro um facho de luz
que de olhos abertos
não se pode ver.


(Yvanna Oliveira)

sábado, 19 de maio de 2012

Mulheres


Em cada passo que dou na estrada
uma mulher salta
pés descalços
sobre saltos
se desfazem no caminho.

A cada passo que sigo
sirvo de morada
abrigo de aves santas
descaradas e devassas.

Em cada trecho da estrada
sou mais uma
sou milhares
mil mulheres
sem disfarces
abrigam-se num olhar.

(Yvanna Oliveira)

Bucólico


As imagens que tenho nas mãos
são a minha companhia
(não posso queixar-me de solidão)
há um lago, há sol, há a vida
e o vento no rosto ingênuo que sorri
cantando palavras que já me são melodia

no terreiro um varal riscando o céu
cheio de lençóis brancos dançando
borboletas coloridas beijando jasmins
girassóis sorridentes se bronzeando

há o violão que dormiu com a lua no sereno
envolto de umas tantas garrafas amigas
há a sede pelo torpor da noite no dia
saciada por beijos e beijos mais doces,

há também o abraço longo e a preguiça
um tapete amarelo completo de flores
e recordações de quando tudo eram só palavras

há uma espreguiçadeira indolente no alpendre
o chamego de um pé que namora o outro
e debaixo da rede os olhos amigos de um cachorro
ao som da sinfonia de pintassilgos e bem-te-vis
convidados constantes da nossa morada

e isto é arte, a nossa frente tela aquarelada
um mundo inteiro pra ser só nosso, em nossas mãos posto.

(Yvanna Oliveira)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Sobre olhos - amontoado de palavras


afogados em mar de rímel descomposto,
sinto muito, meus olhos
insistem em querer fechar

eu fecho as janelas do quarto
porque gosto de mergulhar no escuro
da tristeza permanente alojada em meu peito.

Yvanna Oliveira

domingo, 29 de abril de 2012

Bungee jumping ofertado

Armam-te um penhasco
Dão-te cordas aos metros
Sentes vibrante, latente
O eufórico vento no rosto
Precedendo o momento
Em que tu, depois do vôo,
Bruscamente te enforcas.

(Yvanna Oliveira)

Reflexos


Quando a luz se apaga
e o frio da noite toca-me a pele
sinto meus pés descalços
caminhando sobre as pontas
no labirinto que há em mim
ouço óperas melodramáticas
ora acordes, ora vozes
choro e sorrio com os espelhos
ando numa plataforma deles
e os vejo refletidos nas paredes
-não se pode fugir-
milhares de mim se espalham
 e olham intrigadas outras milhares.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Semana Santa


As casas todas juntinhas
Sino chama na igreja
Mulheres e criancinhas
Vão ver Jesus na peleja

Lá todos dizem amém
Só matraca faz barulho
O sofrimento do bem
Vira vida, traz orgulho

Sob o sol do meio dia
Caminha dona Maria
Com magras canelas secas

Até fome silencia
Ofício da agonia
E Maria satisfeita.

(Yvanna oliveira)