quinta-feira, 5 de julho de 2012

Soneto aos sóis que vejo na fotografia


Seus olhos são luzes que me tornam visíveis
Esclarecem-me a alma, enchem-me de fulgor
São sóis à meia noite, são brilho e calor
Raios que cintilam-me sorrisos sensíveis

Seus olhos tem um brilho que prende os meus
As luzes então saltam e se multiplicam
Envolvem nossos corpos que em nuvem faíscam
Tornam-se um só clarão, apagam-se os breus

Eu não canso de vê-los na fotografia
Seus olhos espelhos d'uma alma feliz
Refletem em mim lembranças primaveris

Recordo instantes de graça e simetria
E os olhos marejam de contentamento
Eu os fecho e viajo no meu pensamento.

(Yvanna Oliveira)

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Versos livres desinteressantes

Quisera eu me fechar no silêncio noturno
das luzes da cidade
perder-me num sobrevoo livre
presa às asas de qualquer ave

Quem dera o meu tormento,
meu pranto e meu lamento
ecoassem do alto daquele rochedo
e estremecessem toda a Terra

Quisera eu ser ouvida,
ser sentida em minha essência...
Mas é vã a minha voz
é inútil o meu sentir

Cruzo a todo instante com tanto estranho
e é estranho o meu falar

Eu, que ordeno aos meus olhos
bloqueio a lágrima e forço o riso
atuo em tantos roteiros
dementes,
incoerentes,
inesperados,
desesperados.

Eu, tão atriz, tão personagem de mim
ainda fraquejo quando sou alvo
dessa retina que só existe nos meus olhos

Então, eu constato de novo
e mais uma vez:
francamente, cansei!

Eu, que tantas palavras calo
e que milhares de angústias disfarço
perdida nos meus anseios
ainda espero da solidão

ainda espero só.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Soneto que nada diz



Para Antonio de Lira

Eu busco, amor, no meu íntimo o que te expresse

O sentimento veemente que me despertas
Mas é em vão, não há versos ou rimas certas
Toda poesia é pequena ao que me parece.

Toda palavra é confusa, logo emudece

Assim que vê o que deve ser traduzido
Então eu calo e te faço só um pedido
Aceite os versos, simplórios. Já anoitece.

E o verso puro que eu quis a mim recusou

Minha agonia já mostra meu insucesso
Eu sinto tanto e não digo. Está bem, confesso:

Sinto-me fraca e sei, pseudopoeta sou

Peço-te entenda a coragem desta aprendiz
Que te oferece um soneto que nada diz.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Soneto ao Silêncio



O meu silêncio tem um quê de sagrado
Fica guardado em teu olhar se desprende
Tanto me diz quanto te quero ao meu lado
Fala tão alto, teu olhar o entende

Deixo-o guardado; meu silêncio só teu
Pois sei que quando nossos olhos se amparam
Culto sagrado: teu silêncio no meu
Eles se guardam, nos protegem, se encaram

Nosso silêncio, sentimento, tem tom
É voz, sussurro, faz sorrir, dá prazer.
Pura harmonia. Nosso amor faz-nos ver
Luz por saber que ouvir silêncio é um dom.

Faz-nos ouvir só o que carece de o ser
Há melodia até na ausência de som

(Yvanna Oliveira)

Pequenos Vulcões


À frente do espelho: não vejo
há imensidões
que embaçam-me a face
e só me resta um ponto fosco de luz
preso no meu olhar

um traço fino já contorna-me os olhos
e o meu semblante vaga
por onde não sei

meus olhos são dois pequenos vulcões
que fervem aos meus tremores
e cada gota que emerge
escorre
se perde
e leva consigo
um pedaço de mim.

(Yvanna Oliveira)

sábado, 26 de maio de 2012

Espectros

À noite o destino é o mesmo
meu desatino vem desse ócio
impregnado nas rachaduras
que viram fantasmas insistentes
e não cansam de me atormentar

(espectros me perseguem)
estou exausta de cochichar

as paredes do meu quarto
já estão cheias de segredos

meus lençóis não suportam mais
o peso das nascentes
a corredeira das lágrimas secas
o assombro das sombras

 (qualquer hora desnudo)

enquanto coberta,
guardo meu mundo
trancado às chaves secretas
por trás das portas dos fundos
um mundo só, meu

lamento,
faz mais frio a cada dia.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Quiromancia



Para acalmar minha ânsia
abro de leve as mãos
vejo as linhas
que passeiam
tontas
se cruzam
em adivinhação.

Pra o futuro,
o traço da vida diz:
Morreste!

Traz-me, pois,
velas no amanhã
e fogo, e luzes
e perfume de flores

Impreca baixinho
aos céus, aos santos
aos orixás, aos deuses
Talvez eu ressuscite.
Quiça eu volte!
No amanhã.