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sexta-feira, 16 de março de 2012

Fim de tarde

Da janela gradeada toco a brisa
sussurro sutilezas ao pé do vento
uma formiga beija o tomateiro
a música embala a subida
uma risca de giz azul
corta rasante meu firmamento
um menino cai, chora
por que mesmo, menino?
esqueça a dor
a vizinha escreve cartas de amor
para ninguém
depois me corrige aos berros
(é para todo mundo!)

o céu cai manso
abraça a Terra
eis o senhor alaranjado
despedindo-se cansado

cochilo sobre os braços
e o vaga-lume  cochicha:
acorda
já vem a lua
abotoar teu céu
de questões
desagasalhadas.

Yvanna Oliveira

Categoria: Mulher e Beleza

Se já me sinto agredida quando vejo a condição de ser mulher associada a um padrão de beleza estética totalmente estereotipado, me sinto duplamente agredida quando vejo a categoria de um site ter por título “Mulher e Beleza” e trazer matérias do tipo: “3 dicas para você arranjar namorado”. “Os principais estimulantes dos relacionamentos duradouros.” “9 posições para amantes experientes.” “Será que ele é ruim de cama? Você só pode descobrir na hora H”. Penso que só pode ter havido algum erro grotesco da edição do bendito site. Até me precipito procurando um meio de entrar em contato e alertá-los do engano. Mas percebo que o engano, na verdade é meu, triste engano... Curiosa que sou, clico na categoria para ver se, de repente, entre as outras publicações ao menos uma delas possa fazer algum sentido de estar ali. Já sem nenhuma surpresa constato que na seção mais notícias para “Mulher e Beleza” há outras pérolas do tipo: “Os segredos das rapidinhas”. “Ele pula as preliminares?”.  E ainda o texto: “Ser solteira é bom” com sua primeira frase que já faz do escritor – sim, um homem – merecedor do Jabuti: ser solteira é bom porque é mais fácil ficar magra.

Desde que percebi esse fato, me tomo de indignação quando vez por outra acesso o site* para acompanhar as notícias do meu estado e da região. É sempre a mesma coisa: quando desço a barra de rolagem, lá está “Mulher e Beleza” um marcador tosco repleto de textos falando sobre sexo e relacionamentos. Um verdadeiro manual para as mulheres saberem tudo que devem e que não devem fazer na cama e fora dela com um homem. Posições, técnicas de massagens e outras dicas que só podem ter sido redigidas por um cara daqueles bem machistas que acham que as mulheres são lindas flores deliciadas que servem tão somente para serem exibidas feito um troféu que lhes pertence, para saciar-lhes o desejo sexual e perpetuar sua espécie.

A minha indignação me faz pensar nas bobagens que não de hoje vem sendo publicadas sob o rótulo de “indicado para mulheres”. O Jornal das Moças e outras revistas já estampavam suas páginas desde o começo do século XX com matérias que eram verdadeiros manuais controladores voltados ao público feminino. Coisas do tipo: “Como arranjar um marido” ou “A esposa deve vestir-se depois de casada com a mesma elegância de solteira, pois é preciso lembrar-se que a caça já foi feita, mas é preciso mantê-la bem presa” ou "Esposa de luxo". Será que o conteúdo carinhosamente pensado para as mulheres mudou mesmo tanto assim? Ontem, como arranjar um marido e o que fazer para mantê-lo fiel, ou, pelo menos, em casa. Hoje, como arranjar um namorado, como se apresentar esteticamente e como transar com ele para mantê-lo no relacionamento. E eis o homem centralizando sempre os supostos únicos interesses femininos.

Não digo aqui que mulheres não se interessem por sexo. Não é isso. Para honra e glória dos orgasmos femininos, o estereótipo de mulher assexuada, tipo virgem santa já foi bastante superado. O problema maior é reduzir o gênero a sexo e estética em meio a uma diversidade tão grande de mulheres e de assuntos pelos quais elas, não simplesmente por serem mulheres, mas por serem gente, podem se interessar. Pois é. Gente quase sempre interessa por sexo, mas também por política, e por esportes, e por literatura, e por música... 

O pior de constatar todas essas coisas é olhar o calendário e perceber: é março! Para além da data que, lamentavelmente, já se faz tão distorcida e comercialmente repleta de perfume de florezinhas e de mensagens; há um sem-número de lutas pelas quais as mulheres ainda tem que lutar; há um sem-número de debates que precisam ser promovidos na sociedade. Uma menina de 16 anos se suicidou no Marrocos por ter sido obrigada a se casar com seu estuprador. Dizem as testemunhas que enquanto morria foi arrastada pelos cabelos para a rua porque o estúpido não aceitava sequer que ela preferisse morrer a estar com ele. Sem precisar ir tão longe, o bárbaro estupro coletivo que aconteceu aqui mesmo no interior da PB e que fez duas vítimas fatais já está sendo esquecido... É março. Há tanto por dizer, mas até no dia Internacional da Mulher o estimado editor continua expondo sua visão tola e reducionista do universo feminino e achando que todas as mulheres devem caber neste rótulo de coisa sexual que ele contribui para que seja cristalizado dia a dia.
Cartaz feito por ONG para campanha contra casamento de menores de idade no Marrocos 




 Yvanna Oliveira

http://www.portalmidia.net/categoria/mulher/

terça-feira, 13 de março de 2012

A porta


Ela veio de mansinho até que um dia chegou de malas e cuias e se alojou na pequena cidade. Escolheu para morada uma casa grande que tinha as paredes bem branquinhas, um cheiro de tinta lavável no ar e era cheia de pinheiros apontando para os céus, alguns na entrada, outros nos fundos daquele lugar. No entanto, o que mais chamava atenção na casa era a porta – uma porta bem maior do que a que os moradores da cidadezinha estavam acostumados a ver aberta e que tinha sobre ela o nome da tal família entalhado em letras garrafais azuis e vermelhas.

Curiosos, os moradores da cidade observavam atentos toda a estrutura que pouco a pouco se organizara. Os recém-chegados eram o assunto da cidade. “Decerto, por esta porta entraremos muitos de nós”, especulavam os mais otimistas. Os pessimistas, embora quisessem também conhecer aquele lugar e aquelas pessoas, se achavam incapazes, inferiores demais para tanto. Por isso, se contentavam em se manter com os próprios pés curvados e apoiados na parede, sujando a frente de suas próprias casas, esperando o tempo passar em todas as tardes sem fim que se seguiam...

Quando foi anunciado que as obras na casa haviam sido concluídas, a cidade foi tomada por tanta ansiedade coletiva que o murmurinho fez chegar o fato até a emissora de rádio da capital, esta, por sua vez, resolveu aparecer por lá para fazer a cobertura do evento de inauguração. Afinal de contas, enfim, a casa ficara pronta e todos queriam ver o que havia por trás da porta imponente.  Os donos prepararam cuidadosamente a festa e trataram de acolher uns tantos vizinhos, moradores das ruas mais próximas, das mais distantes e até de outras cidades também. Chamaram-nos amigos, parte, a partir de então, da tal família. Os jornais noticiaram, as revistas locais também.

Ela veio de mansinho, fez festa, mudou a rotina da cidade, tomou para si a força de que precisava... Foi porta da esperança e porta dos desesperados. Hoje se abre feito luz desbotada no fim da avenida. É preciso encontrar um caminho, principalmente quando não se tem para onde ir. Ainda há quem se dirija até lá, embora as paredes deste lugar cheirem cada vez mais a sujeira e os “acordos” que a tal família imponha aos seus não cheguem feito festa aos jornais, tampouco às revistas. Pois é, dizem tanto que abrir uma porta é fazer um favor, há quem acredite. Na pequena cidade não se contesta o favor que se recebe, se agradece.

Ela veio de mansinho, fez tudo de caso pensado. Cresceu... Cresce. Na mesma medida em que domina, explora e desrespeita. Ops! Há um buraco na fechadura, mas me parece que ninguém vê. Só posso supor: por trás dessa grande porta há gente grande demais.

Yvanna Oliveira