
Se já me sinto agredida quando vejo a condição de ser mulher associada a um padrão de beleza estética totalmente estereotipado, me sinto duplamente agredida quando vejo a categoria de um site ter por título “Mulher e Beleza” e trazer matérias do tipo: “3 dicas para você arranjar namorado”. “Os principais estimulantes dos relacionamentos duradouros.” “9 posições para amantes experientes.” “Será que ele é ruim de cama? Você só pode descobrir na hora H”. Penso que só pode ter havido algum erro grotesco da edição do bendito site. Até me precipito procurando um meio de entrar em contato e alertá-los do engano. Mas percebo que o engano, na verdade é meu, triste engano... Curiosa que sou, clico na categoria para ver se, de repente, entre as outras publicações ao menos uma delas possa fazer algum sentido de estar ali. Já sem nenhuma surpresa constato que na seção mais notícias para “Mulher e Beleza” há outras pérolas do tipo: “Os segredos das rapidinhas”. “Ele pula as preliminares?”. E ainda o texto: “Ser solteira é bom” com sua primeira frase que já faz do escritor – sim, um homem – merecedor do Jabuti: ser solteira é bom porque é mais fácil ficar magra.
Desde que percebi esse fato, me tomo de indignação quando vez por outra acesso o site* para acompanhar as notícias do meu estado e da região. É sempre a mesma coisa: quando desço a barra de rolagem, lá está “Mulher e Beleza” um marcador tosco repleto de textos falando sobre sexo e relacionamentos. Um verdadeiro manual para as mulheres saberem tudo que devem e que não devem fazer na cama e fora dela com um homem. Posições, técnicas de massagens e outras dicas que só podem ter sido redigidas por um cara daqueles bem machistas que acham que as mulheres são lindas flores deliciadas que servem tão somente para serem exibidas feito um troféu que lhes pertence, para saciar-lhes o desejo sexual e perpetuar sua espécie.

A minha indignação me faz pensar nas bobagens que não de hoje vem sendo publicadas sob o rótulo de “indicado para mulheres”. O Jornal das Moças e outras revistas já estampavam suas páginas desde o começo do século XX com matérias que eram verdadeiros manuais controladores voltados ao público feminino. Coisas do tipo: “Como arranjar um marido” ou “A esposa deve vestir-se depois de casada com a mesma elegância de solteira, pois é preciso lembrar-se que a caça já foi feita, mas é preciso mantê-la bem presa” ou "Esposa de luxo". Será que o conteúdo carinhosamente pensado para as mulheres mudou mesmo tanto assim? Ontem, como arranjar um marido e o que fazer para mantê-lo fiel, ou, pelo menos, em casa. Hoje, como arranjar um namorado, como se apresentar esteticamente e como transar com ele para mantê-lo no relacionamento. E eis o homem centralizando sempre os supostos únicos interesses femininos.
Não digo aqui que mulheres não se interessem por sexo. Não é isso. Para honra e glória dos orgasmos femininos, o estereótipo de mulher assexuada, tipo virgem santa já foi bastante superado. O problema maior é reduzir o gênero a sexo e estética em meio a uma diversidade tão grande de mulheres e de assuntos pelos quais elas, não simplesmente por serem mulheres, mas por serem gente, podem se interessar. Pois é. Gente quase sempre interessa por sexo, mas também por política, e por esportes, e por literatura, e por música...
O pior de constatar todas essas coisas é olhar o calendário e perceber: é março! Para além da data que, lamentavelmente, já se faz tão distorcida e comercialmente repleta de perfume de florezinhas e de mensagens; há um sem-número de lutas pelas quais as mulheres ainda tem que lutar; há um sem-número de debates que precisam ser promovidos na sociedade. Uma menina de 16 anos se suicidou no Marrocos por ter sido obrigada a se casar com seu estuprador. Dizem as testemunhas que enquanto morria foi arrastada pelos cabelos para a rua porque o estúpido não aceitava sequer que ela preferisse morrer a estar com ele. Sem precisar ir tão longe, o bárbaro estupro coletivo que aconteceu aqui mesmo no interior da PB e que fez duas vítimas fatais já está sendo esquecido... É março. Há tanto por dizer, mas até no dia Internacional da Mulher o estimado editor continua expondo sua visão tola e reducionista do universo feminino e achando que todas as mulheres devem caber neste rótulo de coisa sexual que ele contribui para que seja cristalizado dia a dia.
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| Cartaz feito por ONG para campanha contra casamento de menores de idade no Marrocos |
Yvanna Oliveira
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